O Labirinto das Minhas Estantes: O que Dizem Três Mil Livros
Entrar
numa sala onde repousam mais de três mil livros é, antes de mais, uma
experiência física. Há um cheiro característico a papel e tempo, um
desalinhamento estético nas lombadas e um silêncio que se impõe mal cruzamos a
porta. Contudo, para quem vive rodeado por esta densidade bibliográfica, o
espaço deixa de ser um mero depósito de volumes e passa a ser uma extensão da
própria mente. Uma biblioteca pessoal deste tamanho não é vaidade; é uma
autobiografia intelectual e afetiva em constante expansão, cujas primeiras
linhas começaram a ser escritas quando eu tinha apenas sete anos.
Recordo-me
perfeitamente do início de tudo. Assim que aprendi a ler, com sete anos de
idade, descobri a magia de colecionar histórias através das aventuras
inesquecíveis da Enid Blyton. Aquela paixão inicial pela leitura
rapidamente ganhou contornos de mistério e investigação quando, na
adolescência, passei a devorar os policiais de Georges Simenon e de Agatha
Christie. Sem o saber, esses primeiros livros de bolso estavam a treinar o
meu olhar para a lógica e para a decifração do comportamento humano — pistas
analíticas que, anos mais tarde, transportei para a minha vida adulta.
À medida
que fui crescendo, as estantes cresceram comigo e ganharam o rigor da academia
e da cidadania. Juntei-lhes os volumes da minha área de formação, a geografia,
que me ensinou a ler o mundo através do território e do espaço. Logo depois,
por puro interesse pessoal e sede de compreender as regras que nos governam,
vieram os tratados de direito administrativo e a administração pública. Olhar
para esse bloco técnico é ver o esqueleto do meu pensamento cívico: a busca
pela ordem, pela justiça e pelo funcionamento das instituições.
Contudo,
uma biblioteca pessoal é também um projeto partilhado, um reflexo das vidas que
se cruzam. Mais tarde, ao juntar-me com o meu atual companheiro (já lá vão vinte
e seis anos), as nossas mentes fundiram-se também nas prateleiras. Com ele,
entraram em casa os livros de economia, política, história de
Portugal e do mundo, e os romances históricos. A nossa coleção
tornou-se, assim, um ecossistema completo. Hoje, a densidade psicológica de Fiódor
Dostoiévski e o suspense contemporâneo de Camilla Läckberg ou Robin
Cook convivem pacificamente com as grandes vozes da literatura lusófona que
tanto nos estimulam. É ali que a ironia de Eça de Queirós, o romantismo
de Camilo Castelo Branco e a genialidade de José Saramago se
cruzam com a riqueza e o realismo de José Eduardo Agualusa, Pepetela
e Mia Couto.
Num
mundo governado pela pressa dos ecrãs e pela efemeridade das redes digitais,
esta biblioteca é o nosso reduto de resistência. As centenas de volumes que
ainda não lemos não nos pesam na consciência; funcionam como a
"antibiblioteca" de Umberto Eco, um lembrete diário e humilde da
nossa própria ignorância e um convite eterno à curiosidade.
Ter mais
de três mil livros não faz de nós sábios, mas garante que nunca estaremos
sozinhos. Olho para estas paredes e vejo tudo: a menina de sete anos que
desbravava caminhos com Enid Blyton, a estudante fascinada pela organização do
território e do direito, e a vida que hoje partilho, página a página, com o meu
companheiro entre debates de economia e enredos de ficção. Esta biblioteca é,
no fundo, o nosso porto seguro — um mapa vivo de quem fomos, de quem somos e de
tudo o que ainda escolhemos descobrir, juntos, prateleira a prateleira.



