quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Uma conversa já com uns bons anos

Foto de Sean Benesh no Unsplash

Há uns anos, estava eu sentada a ler à mesa do café em frente à minha casa, de costas para a porta de entrada, e oiço esta conversa entre dois amigos que, entretanto, haviam chegado e enquanto bebiam uma imperial ao balcão, falavam à vontade sem se aperceberem que a visada estava mesmo ali ao seu lado. Felizmente, foram-se embora sem me ter visto:

— Já leste o que aquela cabra escreveu hoje no blogue dela?

— Sim! Que grande lata.

— Amanhã vais à assembleia municipal? Será que a gaja vai aparecer? Se a vejo lá vou-lhe às fuças, podes crer!

— Mas quem é que lhe terá passado as informações? Só pode mesmo ter sido alguém da autarquia. Está lá tudo: nomes e documentos. Que grande bronca! Se descubro quem foi… 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Quem é Rita Costa?


 

Sentadas na esplanada do “Ponto Final” no cais do Ginjal, a olhar Lisboa ao entardecer e a conversar com Rita Costa...

Tem 30 anos (menos de metade da minha idade).

Filha única, ficou órfã aos 20 anos (os pais morreram num acidente de carro) e passou a viver sozinha desde então.

Foi mãe aos 22, mas o pai da criança (um colega da faculdade), abandonou-a quando soube que estava grávida. Pensou abortar, mas não teve coragem e hoje encontra na filha Inês a sua razão de viver.

Apesar da herança ser suficiente para a sustentar sem precisar de trabalhar enquanto estudava, após o nascimento da filha (no mês seguinte à conclusão do curso de Direito), arranjou emprego na receção de um consultório médico onde esteve até conseguir entrar para a câmara municipal.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O piano do coreto

Imagem retirada DAQUI.
 

Nua, abre devagar as pálpebras. Embaciados, os seus olhos recuperam, pouco a pouco, a nitidez e abrem-se espantados ao fixar um piano de cauda. Olha em redor. Está num coreto, numa cidade desconhecida, com um piano abandonado a seu lado.

De súbito, as teclas tomam vida movidas por dedos invisíveis. A melodia ecoa no rasto dos sons metálicos da banda filarmónica, que ali atuara na véspera.

Sem saber o que fazer, senta-se no chão frio, enfeitiçada pela harmonia das notas musicais que, livremente, dançam no ar. A interpretação é sublime. Perde a noção do tempo e do espaço.

Sem aviso, a música termina. Tudo fica quedo. Pressente outros ruídos. Levanta-se e observa as redondezas. Começa a reconhecer o lugar. O coreto é o de Carnide. Pedacinho de Lisboa onde mora desde pequena.

A tremer, Maria João, acorda assustada. Fora apenas um sonho!

Não ouviu o despertador e sai atarefada para o trabalho num call-center nas Amoreiras. Ao entardecer regressa a casa.

Baixa, de nariz empertigado, é uma moça jovial. De sorriso fácil, a expressão esmorece quando, ao entrar no quintal de acesso ao prédio, o gato preto do vizinho se lhe atravessa no caminho. Mau presságio! Desequilibra-se. Sente o chão a aproximar-se, mas antes de o tocar alguém a segura.

O olhar dela prende-se no sorriso daqueles lábios e no negro dos seus olhos. De imediato, esquece as palavras ásperas que pensara dirigir-lhe. Sente o rosto a enrubescer. Tenta recompor-se.

Com a chave na fechadura, olha para trás e através da porta entreaberta do vizinho vê-o: ao piano do sonho. Ele ainda ali estava e repara no seu olhar, pergunta-lhe se o quer ouvir ensaiar para o concerto daquela noite no coreto. Ela aceita.

E do sonho premonitório ao agoirento gato preto, o amor aconteceu!


Um texto elaborado em parceria entre Ana Brito e Ermelinda Toscano

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Uma história em construção

Foto de Bill Oxford no Unsplash


Diz que é uma espécie de estrutura de um possível romance...

 1.ª PARTE: mulher de causas, corajosa, de sólidos princípios éticos, revoltada com o silêncio conivente dos colegas do departamento jurídico, decide denunciar o esquema de corrução que grassa na autarquia onde exerce funções.

2. ª PARTE: Rita Costa, jovem mãe solteira,

3.ª PARTE: a) pretende que os corruptos da câmara municipal (colegas e políticos) sejam levados a tribunal; b) porque só a condenação desses criminosos permitirá que se faça justiça,

4.ª PARTE: mas uma colega oportunista, amante do chefe de ambas, com o intuito de proteger aquela relação e assim manter os privilégios que dela obtém,

5.ª PARTE: acusa Rita de calúnia e difamação, levando a que lhe seja instaurado um processo disciplinar que acaba por ter um desfecho inesperado.

domingo, 18 de outubro de 2020

Um livro cuja leitura aconselho


 

Já aqui vos falei d'O Pianista de Hotel, de Rodrigues Guedes de Carvalho, um dos livros que comprei na Feira do Livro de Lisboa de 2017. Li-o logo na semana seguinte e volto a falar dele por nos termos cruzado aquando de uma arrumações na minha biblioteca.

Numa escrita simples, sem “rodriguinhos” (apesar do nome do autor), somos levados pelos campos que a solidão trilha na mente das principais personagens.

A escrita é empática, cativa quem está de fora a observar os problemas que, em autorreflexão permanente as e os protagonistas vão vivendo e ultrapassando. Vidas suspensas, onde o desejo é apenas uma tangente que num quotidiano complexo confunde sonho com realidade.

Gente desconhecida que se cruza, desencontros familiares permanentes… e a música que não se ouve, mas se sente… estrofes, notas musicais sublimes ao virar de cada página… é a magia sempre presente!

Um livro cuja leitura aconselho.

sábado, 17 de outubro de 2020

A primeira vez

Fotografia de Susana Barão.
 

A primeira vez que foi de barco até Lisboa, tinha quatro anos. Venceu o medo que sentia fixando-se na paisagem. De pé no banco, com ambas as mãos agarradas à janela aberta, os cabelos drapejando, os olhos espantados a observar o rasto de espuma que o cacilheiro ia deixando sobre as tranquilas águas do rio Tejo, enquanto o avô a abraçava pela cintura. E no regresso a casa, já noite, foi o farol de Cacilhas, com a sua luz circulante, que mais a fascinou. Passaram quase sessenta anos, mas é com saudade que Maria recorda aquele dia.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Palavras novas


 

Se o sonho comanda a vida, eu sou uma inveterada SONHADORÍCIA (alguém que sonha de olhos abertos e embora deixe a imaginação vagar e pareça alheada da realidade tem sempre os pés bem assentes na terra).

Por outro lado, acredito que é CAMINHALENGANDO (diz-se do percurso cauteloso que alguém vai fazendo em direção à meta que deseja alcançar ultrapassando os obstáculos que lhe vão aparecendo pelo caminho com prudência e segurança) que se atinge a meta pretendida e, por isso, o meu lema é “devagar se vai ao longe”.

E porque as vitórias que mais prazer me dão são as que conquisto com esforço, considero que a RESISTILIÊNCIA (capacidade daqueles que sentem satisfação na superação das dificuldades do quotidiano, juntam a resistência com a resiliência e dificilmente se deixam abater pelas adversidades da vida) é uma das minhas maiores virtudes (os defeitos deixo para mais tarde enumerar).

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Hábitos!


 

Sou uma pessoa de hábitos. Há rotinas diárias de que não prescindo. Elas dão-me segurança, fazem-me sentir domínio sobre o quotidiano.

E são coisas tão simples como acordar todos os dias às 6h30 min, o que faço desde criança… (a minha avó paterna, camponesa ribatejana, costumava dizer: “gaiata, tu acordas antes das galinhas”).

Ou, ler enquanto bebo um café (sempre sem açúcar), depois do pequeno-almoço… E este tanto pode ser na pastelaria perto da paragem do autocarro, na proximidade do meu local de trabalho ou, agora, em casa onde tenho o privilégio de me poder sentar na varanda e observar o nascer do sol sobre o estuário do Tejo.

Embora me adapte facilmente à mudança, quebrar rotinas que me satisfazem assusta-me. Por isso, prefiro complementá-las. E para aproveitar o cenário extraordinário que tenho da minha janela gostava de “aprender a fotografar como uma profissional”.

Por outro lado, para potenciar as manhãs domingueiras em que me dedico à arte culinária e faço da família as minhas cobaias das experiências que ouso confecionar, gostava de “aprender a cozinhar pratos novos”.

Mas porque tenho gostos literários muito seletivos, talvez o maior desafio fosse mesmo aceitar “ler um livro de um autor recomendado por um desconhecido”.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Multiplicada


Procuro encontrar-me e dou por mim multiplicada... Não sei se me descubra ou esconda atrás da máscara que a pandemia me obriga a usar. Na rua, muitas são as vezes que me cruzo com gente que não reconheço e a saudação antes tantas vezes ouvida é agora silenciada. Sinto-me uma estranha na minha terra!

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Escrever


 

"Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a dedução é mais forte... porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão... para tornar possível a realidade, os lugares, os tempos, as pessoas... para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e só na escrita eu posso reconhecer. Escrevo para tornar possível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão." (Virgílio Ferreira, in Pensar).

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Sobre os "relacionamentos urbanos"


Já passaram 20 anos desde a data em que escrevi este pequeno texto, que encontrei hoje perdido entre as páginas de um livro:

Nos relacionamentos ditos de "tipo urbano" o que me choca não é a "liberalização dos afetos", nem tão pouco a superficialidade das relações, embora não consiga entender esse tipo de ligações.
O que me indigna de facto, é que, num grupo restrito de pessoas, haver várias delas que já se envolveram sexualmente e a cada novo contacto íntimo o parceiro do momento saber sempre quem o antecedeu e até opinar sobre o assunto... são comportamentos que me constrangem pela exposição, que considero imprópria, dos sentimentos, aqui apresentados como se de coisa menor se tratasse.

domingo, 11 de outubro de 2020

Mulheres de negro


 

Só mesmo a chuva intensa conseguiu afastar o manto exalviçado que tudo cobria.

Ainda assim, a neblina teimava em não se afastar e os terrenos que ladeavam o caminho de pedras basálticas surgiam por entre a bruma como mochões no meio de um rio de águas pantanosas.

Em passos rápidos e sincopados sobre o piso molhado, um grupo de mulheres vestidas de negro, escondendo a tristeza dos seus rostos cansados com os chapéus de chuva que levavam na mão direita, dirige-se à igreja segurando as longas vestes para que se não molhassem.


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Inspirado numa novela de Ferreira de Castro (1954).

sábado, 10 de outubro de 2020

Ida para o trabalho


 

Madrugadora, às 5h30 min Maria já está a levantar-se da cama.

Em gestos calmos, faz a higiene pessoal e veste a roupa escolhida na véspera.

Pega no livro (nunca sai sem um) e na mala, mas antes de sair cumpre o seu ritual diário… dirige-se à janela da varanda e olha o panorama: o sol rompendo por entre as nuvens ensonadas, os reflexos que incendeiam o céu e cobrem o leito do rio Tejo de uma policromia tremeluzente.

É nesta paisagem que busca ânimo para enfrentar as agruras do quotidiano e o sorriso tímido que lhe aflora ao rosto, acompanhado pelo leve franzir dos olhos, demonstra-o.

No autocarro em direção a Lisboa, lê compenetrada. Faz uma única conceção: sobre o tabuleiro da ponte admira o despertar da capital e deleita-se com a sumptuosidade da paisagem estuarina.

Já perto do escritório, senta-se na esplanada de sempre (é uma mulher de hábitos) a beber, descansada, o café da manhã (sem açúcar) e a ler até às 7h45 min.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A minha sala


Ao abrir a porta foi recebida por um odor ambarino e abraçada pelos acordes de Miles Davis.

Deu dois passos no pequeno hall e entrou na sala decorada com móveis de carvalho, estilo nórdico.

Atirou com a mala para o maple à sua direita e sentou-se no maior, em frente à televisão, de écran plano, que tinha na parede por companhia um relógio de cedro com pêndulo dourado e uma coluna com centenas de discos.

Sobre a cabeceira de cada sofá, duas telas a óleo em tons pastel combinando com a cor verde escuro dos estofos em pele dos sofás e o candeeiro em ferro fundido cujas lâmpadas imitam seis velas acesas.

No centro, uma mesa com o jogo de xadrez em cerejeira. Na direção oposta, a mesa de jantar com quatro cadeiras ergonómicas ladeada por uma cristaleira e uma estante coberta de livros.

Ao fundo, a secretária virada para uma ampla janela de onde se avista o estuário do Tejo num horizonte de 180º graus. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Viagem de avião

Imagem retirada DAQUI.
 


Não era a primeira vez que Maria fazia uma viagem de avião. Contudo, nem o hábito regular dos trajetos entre Lisboa e o Funchal, sempre por motivos profissionais nos últimos dez anos, a fazia gostar deste meio de transporte.

Mas que alternativa tinha? Viajar de barco é que nem pensar! Um cruzeiro pelo oceano adentro ao sabor das ondas ainda a horrorizava mais. E uma viagem aérea sempre tinha a vantagem de ser muito mais rápida transformando o tormento do percurso no instante de uma boa soneca, sempre com a ajuda da amiga valeriana.

Chovia. A água desenhava um bailado acelerado e irrequieto no vidro da janela e tornava a visão do exterior turva. Ainda assim, e apesar do olhar ensonado, Maria não deixou de apreciar a beleza do estuário do Tejo ao entardecer, com a luz do sol a dourar o casario da capital que das colinas até à margem parecia abraçar o rio num namoro envergonhado.

E de pouco mais além da filigrana de estradas e viadutos, da ponte Vasco da Gama a bordejar a linha do horizonte e da foz do rio Trancão, se conseguia lembrar pois, entretanto, fechou os olhos e foi já em sonhos que prosseguiu pelas ruelas do seu bairro (Alfama) sentindo o cheiro a sardinha assada na porta da tasca do velho Luís, ouvindo o cantar canoro da neta da D. Lurdinhas ou apreciando o sorriso maroto do proprietário do Retiro do Fado.


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