sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sem eira nem beira



O destaque de hoje é retirado, na íntegra (vídeo e texto) do artigo de 16-04-2009, colocado on-line no canal do Youtube que podem consultar AQUI.

«Canção dos Xutos transformada em manifesto contra Sócrates

Quem conhecer a discografia dos Xutos & Pontapés sabe que o cariz de intervenção e alerta social marcaram sempre presença nas letras das músicas. Mas os membros desta banda nunca quiseram vestir a roupagem de líderes de uma revolução política, nem apoiam, enquanto colectivo, qualquer partido político, assegura Zé Pedro, guitarrista dos Xutos. Por isso, é com alguma surpresa que o grupo assiste à euforia em torno da canção Sem eira nem beira, que integra o novíssimo álbum Xutos & Pontapés, disco de originais que foi lançado na passada semana.

Interpretar esta faixa, cantada pelo baterista Kalu, como um hino contra as políticas do Governo socialista é "deturpar" a intenção do grupo. "Não há aqui alvos a abater", diz, em resposta ao facto de o refrão começar com a frase Senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. "Não queremos fazer um ataque político a ninguém. A letra exprime mais um grito de revolta. E é um alerta para o estado da Justiça e para uma classe política em geral que, volta e meia, toma atitudes que deixam os cidadãos desamparados", justifica.

O grupo não poderia prever o impacto desta faixa do disco que celebra os 30 anos de carreira do colectivo e que será apresentado pela primeira vez ao vivo a 24 de Abril, no Seixal. Neste contexto, Zé Pedro insiste que qualquer aproveitamento da música para criticar e contestar o Governo não receberá a "solidariedade" dos Xutos.

Zé Pedro, que, diz, até "simpatiza" com o primeiro-ministro José Sócrates, aponta ainda que quando Tim, o vocalista, escreveu o texto para a música de Kalu, tiveram de optar entre "senhor engenheiro" e "senhor doutor": "Optámos por engenheiro por causa do actual primeiro-ministro, mas nunca quisemos fazer um ataque político directo."

Tim escreveu a letra de Sem eira nem beira já em estúdio, conta Zé Pedro, e "em cima da hora". "Falámos que seria interessante trabalhar uma temática de intervenção e com alguma rebeldia, porque a música é do Kalu e seria ele a cantá-la", afirma.

Vídeos no YouTube

O guitarrista dos Xutos não viu o vídeo transmitido no Jornal Nacional da TVI, no passado fim-de-semana - imagens de José Sócrates em inaugurações e na Assembleia da República, tendo em fundo a música Sem eira nem beira. Mas Zé Pedro não tem dúvidas de que a ideia da TVI foi uma "deturpação" das "intenções" dos Xutos.

Depois da iniciativa da TVI já surgiram mais duas montagens em vídeo no YouTube: ambas utilizam a música dos Xutos e são ilustradas com Sócrates e vários membros do Governo; há imagens das manifestações dos professores, dos protestos dos alunos, do centro comercial Freeport, Manuel Alegre em versão "gato das botas" e um cartaz do filme Os Intocáveis com as personagens Sócrates, Isaltino Morais, Dias Loureiro e Fátima Felgueiras.

Os comentários, laudatórios, partilham a leitura política: "Esta música tem um destino: J. Sócrates"; "é nosso dever exigir políticos sérios e competentes"; "é uma música para puxar pelo povo, para 'dar força para lutar'"; "a letra retrata muito bem a nossa actual situação".

A letra do tema Sem eira nem beira

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um "passou bem"

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar, despedir
Ainda se ficam a rir

Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar, enganar
O povo que acreditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a f***r
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a...

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Dê-me um pouco de atenção.»
Que sirva para reflectir, mais do que para divertir.
Bom fim-de-semana para todos.

2 comentários:

Luisneto disse...

Começo por dizer que não gosto dos xutos e que nunca gostei e conheço-os desde Janeiro de 1980. Acho-os ocos, vazios e inócuos, não sabem tocar, não sabem cantar e as letras são o reflexo deles próprios, uns meninos betinhos que sempre tiveram a mania que eram rebeldes. A sua colagem aos problemas da sociedade portuguesa não passa de uma mera encenação para cativar a malta que anda sempre em busca de ídolos e gurus.... O último disco deles, apesar da enorme campanha publicitária que os media fazem, não vale um chavo, as letras, mais uma vez são de uma pobreza que dá mesmo a ideia que estamos a lidar com mais um daqueles fenómenos à portuguesa do mesmo tipo do Tony Carreira, aliás, para mim não passam de coisas em tudo semelhantes de tão vazias que são.....
Sei que é contracorrente não gostar dos xutos mas.... nunca gostei, nunca vi nada neles que me despertasse fosse o que fosse e nos caso deste engenheiro de que eles falam.....um destes dias virão virar o bico ao prego.....

Luís Neto

Minda disse...

Luís Neto:

Decerto já ouviu dizer que "gostos não se discutem". Não gosta dos Xutos? Está no seu direito.

Pois eu gosto. E muito! Sou uma fã desde sempre.

Quanto ao resto... não vale a pena comentar.

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