sábado, 22 de agosto de 2026

A Geografia dos Nossos Dias: Três Mil Razões para Não Estar Só.


 (Breves notas sobre a minha biblioteca pessoal)

 

O Labirinto das Minhas Estantes: O que Dizem Três Mil Livros

Entrar numa sala onde repousam mais de três mil livros é, antes de mais, uma experiência física. Há um cheiro característico a papel e tempo, um desalinhamento estético nas lombadas e um silêncio que se impõe mal cruzamos a porta. Contudo, para quem vive rodeado por esta densidade bibliográfica, o espaço deixa de ser um mero depósito de volumes e passa a ser uma extensão da própria mente. Uma biblioteca pessoal deste tamanho não é vaidade; é uma autobiografia intelectual e afetiva em constante expansão, cujas primeiras linhas começaram a ser escritas quando eu tinha apenas sete anos.

Recordo-me perfeitamente do início de tudo. Assim que aprendi a ler, com sete anos de idade, descobri a magia de colecionar histórias através das aventuras inesquecíveis da Enid Blyton. Aquela paixão inicial pela leitura rapidamente ganhou contornos de mistério e investigação quando, na adolescência, passei a devorar os policiais de Georges Simenon e de Agatha Christie. Sem o saber, esses primeiros livros de bolso estavam a treinar o meu olhar para a lógica e para a decifração do comportamento humano — pistas analíticas que, anos mais tarde, transportei para a minha vida adulta.

À medida que fui crescendo, as estantes cresceram comigo e ganharam o rigor da academia e da cidadania. Juntei-lhes os volumes da minha área de formação, a geografia, que me ensinou a ler o mundo através do território e do espaço. Logo depois, por puro interesse pessoal e sede de compreender as regras que nos governam, vieram os tratados de direito administrativo e a administração pública. Olhar para esse bloco técnico é ver o esqueleto do meu pensamento cívico: a busca pela ordem, pela justiça e pelo funcionamento das instituições.

Contudo, uma biblioteca pessoal é também um projeto partilhado, um reflexo das vidas que se cruzam. Mais tarde, ao juntar-me com o meu atual companheiro (já lá vão vinte e seis anos), as nossas mentes fundiram-se também nas prateleiras. Com ele, entraram em casa os livros de economia, política, história de Portugal e do mundo, e os romances históricos. A nossa coleção tornou-se, assim, um ecossistema completo. Hoje, a densidade psicológica de Fiódor Dostoiévski e o suspense contemporâneo de Camilla Läckberg ou Robin Cook convivem pacificamente com as grandes vozes da literatura lusófona que tanto nos estimulam. É ali que a ironia de Eça de Queirós, o romantismo de Camilo Castelo Branco e a genialidade de José Saramago se cruzam com a riqueza e o realismo de José Eduardo Agualusa, Pepetela e Mia Couto.

Num mundo governado pela pressa dos ecrãs e pela efemeridade das redes digitais, esta biblioteca é o nosso reduto de resistência. As centenas de volumes que ainda não lemos não nos pesam na consciência; funcionam como a "antibiblioteca" de Umberto Eco, um lembrete diário e humilde da nossa própria ignorância e um convite eterno à curiosidade.

Ter mais de três mil livros não faz de nós sábios, mas garante que nunca estaremos sozinhos. Olho para estas paredes e vejo tudo: a menina de sete anos que desbravava caminhos com Enid Blyton, a estudante fascinada pela organização do território e do direito, e a vida que hoje partilho, página a página, com o meu companheiro entre debates de economia e enredos de ficção. Esta biblioteca é, no fundo, o nosso porto seguro — um mapa vivo de quem fomos, de quem somos e de tudo o que ainda escolhemos descobrir, juntos, prateleira a prateleira.

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